Escore de risco cardiovascular: por que o corte é diferente para homem e para mulher
O Escore de Risco Global — a equação de Framingham publicada por D'Agostino e colaboradores em 2008 e adotada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia — devolve um número: a probabilidade de um evento cardiovascular nos próximos dez anos. O número, sozinho, não decide nada. O que decide é a faixa em que ele cai. E é aí que mora o detalhe que quase toda calculadora on-line ignora.
As duas réguas
Na estratificação da SBC, a mesma probabilidade cai em faixas diferentes conforme o sexo:
- Risco baixo: abaixo de 5% — igual para os dois.
- Risco intermediário: de 5% a 20% no homem; de 5% a 10% na mulher.
- Risco alto: acima de 20% no homem; acima de 10% na mulher.
Traduzindo: um resultado de 12% em dez anos é risco intermediário num homem e risco ALTO numa mulher. São duas conversas clínicas diferentes, com duas metas diferentes, a partir do mesmo número.
Por que isso erra sempre para o mesmo lado
Ferramentas que guardam um corte único guardam, quase invariavelmente, o masculino — que é o mais permissivo. O efeito é sistemático: a mulher com risco alto é classificada como intermediária, e a classificação mais branda não gera o mesmo grau de intervenção.
O erro é silencioso porque nada na tela indica que houve escolha. Aparece um percentual e um rótulo, e o rótulo parece um fato. Não é: é o resultado de aplicar uma régua que pode ser a errada.
Vale registrar o contexto: a doença cardiovascular é a principal causa de morte de mulheres no Brasil, e a literatura sobre subdiagnóstico e subtratamento cardiovascular feminino é ampla. Uma ferramenta que subestima justamente esse grupo agrava um problema que já existe.
A segunda armadilha: quem já tem doença não entra na equação
Esta é ainda mais fácil de cair, porque o sistema devolve um número perfeitamente plausível.
O escore foi derivado numa coorte sem doença cardiovascular. Ele estima a chance de um primeiro evento. Aplicá-lo a quem já teve infarto, acidente vascular cerebral, doença arterial periférica ou revascularização não é conservador nem aproximado: é inválido — e o número que sai costuma ser baixo, porque a equação só enxerga idade, colesterol, HDL, pressão, tabagismo e diabetes, e não enxerga o evento que já aconteceu.
Pela estratificação da SBC, são condições de risco alto por definição, independentemente de qualquer escore:
- doença aterosclerótica manifesta (coronariana, cerebrovascular ou periférica);
- aneurisma de aorta abdominal;
- doença renal crônica com filtração glomerular abaixo de 60 mL/min/1,73 m²;
- LDL-colesterol igual ou acima de 190 mg/dL;
- diabetes com lesão de órgão-alvo ou estratificadores de risco.
Diante de qualquer uma delas, a conduta correta não é calcular: é não calcular, e classificar como alto risco.
O que um sistema clínico deveria fazer com isso
Três coisas, e nenhuma delas é difícil:
- Imprimir a régua ao lado do número. "18%" numa folha sem contexto é ambíguo entre os sexos. "18% — alto risco (mulheres: acima de 10%)" não é.
- Recusar-se a calcular quando o cálculo não vale, dizendo por quê. "Alto risco por doença aterosclerótica manifesta; o escore não se aplica" é uma resposta melhor do que qualquer percentual.
- Devolver o que falta em vez de um número. Um risco que sai "baixo" porque o HDL não foi digitado é pior do que risco nenhum: ele encerra a conversa.
O cálculo é apoio ao registro. A leitura clínica e a conduta continuam sendo do médico.