Check-up do adulto: o que rastrear por idade

"Doutor, quero fazer um check-up." A pergunta chega em quase toda agenda, e a resposta não é uma lista de exames: é uma lista de rastreamentos com evidência, filtrada por idade, sexo e fatores de risco. Rastrear é procurar doença em quem não tem sintoma — e só faz sentido quando encontrar cedo muda o desfecho.

O que tem recomendação de rotina no Brasil

  • Pressão arterial. Adultos a partir dos 18 anos, em toda consulta (Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, SBC).
  • Perfil lipídico. A partir dos 20 anos, para estratificação de risco cardiovascular (SBC).
  • Glicemia ou HbA1c. A partir dos 45 anos, ou em qualquer idade com IMC ≥ 25 e um fator de risco adicional; a cada três anos quando normal (Sociedade Brasileira de Diabetes).
  • Citologia do colo do útero. Mulheres de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual. Dois exames anuais; sendo ambos normais, passa a trienal (INCA/Ministério da Saúde).
  • Colorretal. De 50 a 75 anos, com pesquisa de sangue oculto nas fezes (INCA/Ministério da Saúde).
  • HIV, hepatite B, hepatite C e sífilis. Ao menos uma vez na vida, com mais frequência em situação de maior exposição (Ministério da Saúde).
  • Densitometria óssea. Mulheres a partir dos 65 anos; antes disso, com fator de risco para fratura.

Onde as recomendações discordam: a mamografia

Este é o caso em que um sistema não pode escolher um lado sem avisar.

  • Ministério da Saúde / INCA: bienal, dos 50 aos 69 anos. É a recomendação do rastreamento organizado, e ela pesa o balanço entre benefício e dano (falso-positivo, biópsia desnecessária, sobrediagnóstico) na população geral.
  • Sociedades de especialidade (SBM, CBR, FEBRASGO): anual, a partir dos 40 anos.

A divergência é real e conhecida. Um sistema que mostrasse só uma das duas pareceria errado para metade dos médicos que o abrissem. O caminho honesto é mostrar as duas, cada uma com o nome de quem recomenda — do mesmo jeito que os calendários vacinais público e privado são mostrados lado a lado.

O que NÃO é recomendado rastrear: o PSA

O Instituto Nacional de Câncer e o Ministério da Saúde não recomendam o rastreamento de câncer de próstata em homens assintomáticos. Não é omissão nem falta de atualização: é a conclusão do balanço entre o benefício (pequeno e incerto em mortalidade) e o dano (sobrediagnóstico de tumores que nunca dariam sintoma, biópsias, incontinência urinária e disfunção erétil decorrentes de tratamento).

Isso não significa que o exame nunca deva ser feito. Significa que a indicação é individual e compartilhada: uma conversa sobre o que o exame pode e não pode entregar, e não um item de uma lista que o sistema cobra.

É uma distinção que um software precisa saber fazer. Omitir o item faria o médico achar que o sistema esqueceu; listá-lo como pendência faria o sistema cobrar exatamente o que a política brasileira desaconselha. O lugar dele é uma terceira categoria — decisão compartilhada — que nunca entra na contagem de pendências.

O adulto também tem calendário vacinal

É a parte mais esquecida do check-up. O reforço decenal de dupla adulto (dT) vence sem avisar; hepatite B é oferecida pelo PNI em qualquer idade; tríplice viral, febre amarela e influenza têm indicação própria por faixa etária; e o calendário da SBIm acrescenta o que a rede pública não cobre no adulto saudável.

Por que isso vira trabalho de sistema

Cada item acima tem uma faixa etária, um intervalo de repetição e uma fonte. Numa consulta de quinze minutos, ninguém reconstrói de cabeça o que está vencido para aquele paciente — e o que não é lembrado não é pedido.

O que um registro clínico deve fazer é simples de descrever: guardar o que foi feito e quando, comparar com a régua da idade e do sexo, e mostrar o que está devido com a fonte da recomendação ao lado — para que quem lê saiba de quem é a régua, e possa discordar dela com conhecimento de causa.

A lista é apoio ao registro. A indicação e a conduta continuam sendo do médico.